18/07/09

Gasherbrum GVI - A DESCIDA

Com o Sol agora a bater de chofre na face, a retirada do GVI prometia ser dificil. Teriamos de descer precisamente pela mesma linha, o que significava rapelar quase toda a via.
Na verdade, já não existia qualquer urgência em termos de tempo. Agora, o primordial era descer em segurança, independentemente das horas necessárias.
Os rapeis foram-se sucedendo, geralmente com instalações em "Abalakovs" (pontes de gelo) e algum que outro piton de rocha, apesar da dificuldade em encontrar bons locais onde montar reuniões.
A meio da via, realizamos alguns destrepes assegurados e, finalmente, ao anoitecer, alcançamos as rampas menos inclinadas da base da vertente.
A neve encontrava-se agora nas piores condições e enterravamo-nos até ao joelho e ás vezes até à cintura. De qualquer modo, já não importava, pois já nos encontravamos a salvo.
Ás 21.30, chegámos à tenda, cerca de 20 horas depois de iniciar a aventura.
O dia seguinte foi de descanso e programámos para o outro dia uma subida ao campo II do GII, para melhorar a nossa aclimatação. Mas, uma hora depois de sair da tenda, as nossas pernas não pareciam concordar com a nossa vontade e retornámos pelos nossos passos. Pelo visto, ainda estavamos muito cansados da nossa tentativa.
Descemos até ao campo base, sob um nevão e nevoeiro, apenas guiados pelos vestigios do trilho no glaciar. A hora da descida não foi a melhor, pelo que de vez em quando, as nossas pernas descobriam novas crevasses!

Até à data, ninguém, com a excepção de Ueli Steck, atingiu algum cume por aqui. O tempo não tem estado muito famoso, as montanhas estão bastante carregadas de neve e as ultimas previsões apontam para ventos da ordem dos 120 km em altitude para os próximos dias.
Quanto a nós, para já, apontamos em direcção à via normal do GII. A quantidade de neve não nos permite realizar uma tentativa de confiança ao "Esporão dos Franceses", por isso, somos forçados a mudar de objectivo.
Depois, com sorte, talvez ainda nos sobre tempo para uma nova tentativa ao GVI... talvez...

Daniela e Paulo


A descida

17/07/09

Gasherbrum VI - A SUBIDA (tentativa)

Há muito que não dizemos nada.

Ontem, o mau tempo não permitiu carregar a bateria do PDA, por isso, "no news".
Os ultimos 2 dias foram já passados no campo base, após uma tentativa infrutifera ao GVI. Então a história reza assim...

Dia 11, com a ideia de que nos dois dias seguintes estaria bom tempo, saimos do campo base em direcção ao "Campo Esperança", uma tenda que deixámos montada algures a meio do glaciar, bem perto da face do GVI que pretendiamos escalar. Pelas 2 da manhã de dia 12, começou uma longa jornada, que teria o seu final, após quase 20 horas de continua acção, pelas 21:30. Saimos do "Campo Esperança" iluminados pela lua, o que fazia pensar que o bom tempo se íria confirmar. Em cerca de 10 minutos, a suave inclinação do glaciar ficou para trás e de repente eramos dois pequenos pontos que pisavamos terreno que nunca antes tinha sentido a preseça humana. Aquela montanha com que tanto sonhamos pareceu de imediato aceitar a nossa presença, a neve estava em condições bastante aceitáveis, o que nos permitiu uma progressão que, nas primeiras horas nos pareceu surpreendentemente rápida. Lá em baixo, no glaciar, vários pontinhos luminosos avançavam em direcção ao campo 1, soubemos mais tarde que esses pontinhos viam também a luz projectada pelos nossos frontais, já na segunda metade da face que escalávamos com alegria. A pendente começou com uns 55° e acentuou-se à medida que subiamos. Progrediamos em "ensamble", colocando algumas protecções aqui e ali, quando o terreno o permitia, um ou outro parafuso de gelo, um ou outro piton em rocha, por vezes protecções confiáveis, por vezes puramente...psicológicas!
A cerca de metade da face, a pendente acentuou-se. As condições do terreno, que com o avançar das horas se foram tornando mais precárias (neve menos consistente), forçaram-nos em certos trechos a montar reuniões, atrasando assim a escalada. Perto das 5 da manhã, quando começaram a surgir os primeiros traços de claridade, tinhamos bem mais de metade da face por debaixo dos nossos crampons, o que nos fez acreditar que pouco depois do nascer do dia conseguiriamos atingir a longa aresta que dá acesso ao cume. Mas o surgir do dia, trouxe consigo duas surpresas, a temperatura subiu bastante e como consequencia, a qualidade da neve e pouco gelo que existia, tornou-se cada vez mais precária.Também a meteorologia nos surpreendeu, o que era suposto ser um bom dia, surgia como um céu sem sol, a despejar incómodos flocos de neve. Percebia-se que o sol queria sair, mas as nuvens que nos envolviam insistiam em dificultar-lhe essa tarefa. De repente, a escalada tornava-se cada vez mais dura, maiores inclinações num terreno cada vez menos confiável e claro... o tempo necessário para ganhar metros à montanha era cada vez maior.

Meio-dia, a aresta parecia estar mesmo ali, mas as dimensões enganavam-nos.Os 65° que a pendente agora oferecia, iam ainda acentuar-se! As modestas cornijas vistas do glaciar eram agora enormes tectos de neve, que de quando em vez deixavam cair pequenos troços de gelo. Pequenas avalanches provocadas pelo calor e algumas rochas que se soltavam e zumbiam devido à velocidade, provocavam um stress cada vez maior. O grau de confiança... esse começava a descer. Apesar de muito perto, talvez a cerca de 100m da aresta (e com mais de 700 metros de ascensão cumpridos), a tarefa de a atingir parecia cada vez mais complicada. Olhamos em volta com ideia de montar a tenda, ainda sem saber muito bem se o objectivo do dia seguinte seria continuar, mas à nossa volta, tudo era terrivelmente empinado e exposto, pelo que fomos forçados a admitir que ou iamos para cima... ou para baixo!
- "Paulo, sobe lá mais um bocado, até áquelas rochas, pode ser que dê!"
Apenas mais dois largos de escalada e estariamos na aresta. Numa desconfortável reunião de dois parafusos de gelo, eu asseguráva e o Paulo tentava progredir numa pendente de 70° de gelo de fraca qualidade.
- "Acho que não vou conseguir".
Um segundo depois, vejo o piolet que tinha na mão esquerda a enterrar-se num troço de neve que se desfez como areia. Acima das nossas cabeças erguiam-se uns pequenos esporões de neve vertical perfeitamente inconsistente, resultado da acumulação provocada pelos ventos constantes que sopram do lado oposto da montanha. A culminar esses esporões, algumas cornijas complicavam ainda mais a saída para a tão desejada aresta. Tornara-se impossivel tanto progredir, como proteger.

O resultado do esforço estava à vista: teriamos de descer!

(continua)

Daniela Teixeira




Daniela no Gasherbrum VI



Paulo no Gasherbrum VI

15/07/09

De regresso ao Campo Base

Hoje recebi um telefonema (via satélite) da Daniela e do Paulo. Transmitiram-me que estão de regresso ao Campo Base em perfeito estado de saúde após a tentativa falhada ao Gasherbrum VI.

Também descreveram o panorama das condições das montanhas circundantes (e basta dar uma volta aqui pela web para ver que esta temporada no Baltoro alpinistas nos cumes são quase nulos) que estão extremamente carregadas de neve de pouca consistencia.

Amanhã vão tentar colocar aqui um post a relatar as vivencias dos últimos dias.

10/07/09

GASHERBRUM VI (G6)

No passado dia 2, deveria ter aparecido aqui uma mensagem/post escrito pela Daniela e Paulo, acerca das suas intenções do decorrer desta expedição. Mas, devido a problemas técnicos nas comunicações informáticas, a citada mensagem não chegou.

Após uma estadia relativamente longa no Campo Base, e apesar do principal objectivo anunciado para esta expedição ser a ascensão na via «Esporão dos Franceses» no Gasherbrum II (8035 mts), à saída de Portugal havia um segundo objectivo menos divulgado: a primeira ascensão ao “virgem” cume do Gasherbrum VI (7004 mts).

O Gasherbrum VI (GVI), é um vizinho dos gigantes G I e G II e do belo e inigualável G IV. Tem cerca de 7004 metros de altitude e nunca antes foi oficialmente escalado. Algumas foram as expedições que tentaram esta codiciada primeira ascensão, mas sem sucesso até à data. Por incrível que pareça, nunca ninguém pisou este cume!

Neste momento, a Daniela e o Paulo estão em plena tentativa de abertura da primeira via ao cume desta grandiosa montanha.

Seguramente será um êxito!!!


Apesar das escassas informações, em principio esta tentativa decorre sobre a face Nordeste do G VI e sua aresta final (a confirmar!)


Daniela and Paulo are trying now the first ascent of the unclimbed Gasherbrum VI peak.




26/06/09

Aclimatação - Primeira incursão ao campo 1

24 a 26-06-2009

3 da madrugada. Um frio moderado acompanha a nossa saída do campo base em direcção ao campo 1, ou base avançado. Atravessamos o enorme glaciar que vence quase mil metros de desnivel. Formamos uma cordada de três. Acompanha-nos Dirk, um simpático alemão que se juntou a nós para cruzar o glaciar em segurança.
Dias antes, uma equipa internacional, com o objectivo de abrir uma nova via no Gasherbrum III, tinha já marcado todo o trilho. Foi um trabalho que lhes ocupou vários dias, devido a desfavoráveis condições de neve e às labirinticas caracteristicas do glaciar.
Aqui fica o nosso agradecimento a esta equipa, que facilitou imenso o acesso, a todos os que pretendem escalar os Gasherbrums.
Relativamente ao ano passado, o glaciar encontra-se (por enquanto) em optimas condições. Não sentimos saudades nenhumas dos ameaçadores blocos de gelo outrora pendiam sobre as nossas cabeças, nem das grandes crevasses, que punham à prova as nossas capacidades atléticas (e mentais!).
Nesta primeira incursão, demoramos sete horas para alcançar o campo 1.
Para curar a caminhada e relembrar a nossa tão rica gastronomia, juntamos ao corriqueiro chá, um belo naco de salpicão. Como se tal não fosse absolutamente compensador, um salmão em molho de tomate e basílio acalmou as nossas mentes (e estômagos) famintos.
A noite não tardou em chegar e decorreu com normalidade, entenda-se normalidade como: a Daniela em (quase) perfeitas condições (não se livrou de uns ataques de tosse, residuos da crise de sinusite) e eu com uma clássica dor de cabeça!
Por volta das cinco da manhã, com o frio a morder-nos os ossos, retornámos ao campo base, onde chegamos muito a tempo de tomar o pequeno-almoço. É incrivel, como as longas sete horas para subir, se transformaram em escassas duas e meia para regressar!
Cá por baixo, voltamos a dedicar-nos à vidinha fácil de campo base, preparando desta forma a próxima etapa da aclimatação, antes de tentar escalar... qualquer coisa!

23/06/09

CAMPO BASE

22 e 23 de Junho

Que bem que sabe o descanso por estas bandas, e que bem que sabe utilizar novamente o nariz para respirar. As recuperações a esta altitude são mais demoradas mas cremos que estamos com as condições mínimas para darmos um “pulinho” ao Campo Base Avançado ou Campo 1.


Pois é, amanhã por volta das três da madrugada vamos rever o enorme pedaço de gelo que nos separa da verdadeira base do GII, aquele labirinto gigante que outrora tanto tempo e atenção nos absorveu. Desta vez temos uma pequena vantagem, outros já trilharam o caminho com o que, com sorte, basta-nos seguir o rasto de “crampons” e não perder as bandeirolas de vista. Mas, não nos devemos safar a umas boas 7 ou 8 horas até atingir-mos o lugar para repousar os ossos aos cerca de 6000 metros.

Connosco irá também um Alemão com quem partilhamos o Campo Base. Conhecemos já um pouco a peça e faremos seguramente uma divertida cordada de três… o numero que Deus fez!

A meteorologia adivinha-se favorável para os próximos dias, tal como esteve nos dois últimos. Os raios com que o sol nos tem brindado são essenciais para secar o “cuecame”!!!

Daniela e Paulo

21/06/09

Gore II-Shangri-Campo base

18 a 21-06-2009

Em Gore II mais um acordar sob um gélido manto de neve... Gélido o suficente para os carregadores se recusarem a avançar. Assim, fomos forçados a ter um dia extra de repouso.
A caminhada de dia 19, entre Gore II e Shangri aos 4700 metros, poderia ter decorrido normalmente, se não nos tivessem enchido os cantis com água com um insuportável sabor estranho.
Incompreensivelmente, o nosso staff colocou a água para beber num barril onde antes estivera combustivel, pelo que esta ganhou um inconfundivel sabor a petróleo. A consequencia foram três horas de caminhada a seco com toda a gente a reclamar em Concordia, onde por força das reclamações conseguimos obter alguns liquidos.
Pós Concordia,até ao campo de Shangri, para mim (Daniela) a coisa foi penosa, nem as belas vistas sobre as montanhas foram suficientes para atenuar uma terrivel dor de garganta, presságio de uma grande crise de sinusite!
Entre Shangri e o campo base é que foram elas: um misto entre a desidratação e intoxicação do dia anterior, à mistura com o efeito dos medicamentos contra a sinusite e com a própria sinusite, transformaram o trek final numa verdadeira odisseia, especialmente nas primeiras horas da manhã. Pouco a pouco, fui melhorando, mas ainda assim, o que deveria ter sido uma simples caminhada de 2,5h, transformou-se numa tortuosa viagem de 4h.
O resto do dia, foi para merecido descanso, assim como o dia de hoje...nada melhor para começar a recuperar da narigota inflamada!
O Paulo?
Está muito bem e recomenda-se!
Espero estar como ele dentro de um ou dois dias, para fazermos a primeira incursão no glaciar e assim iniciarmos oficialmente o processo de aclimatação.